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Cordel pede passagem na Flip com batalha de repentistas

A ciência do peido ou O Homem que perdeu a rola são títulos que aparecem expostos em uma larga mesa ao lado de outros menos pitorescos, como Deforma da Previdência ou Tragédia em Brumadinho. Foram necessários 17 anos e um título de Patrimônio Cultural do Brasil —concedido em outubro de 2018— para que a Literatura de Cordel ganhasse um espaço próprio na Festa Literária Internacional de Paraty. Nesta edição, que vai até domingo (14/07), uma dezena de cordelistas de diversos estados brasileiros reúne-se no prédio do Iphan, no centro histórico da cidade, para vender suas obras e falar sobre a cultura do cordel. Em anos anteriores, os poetas populares circulavam pelas ruas de Paraty por conta própria, como vendedores ambulantes.

Um deles é Severino Honorato, administrador de empresas de 56 anos, natural de Mulungu (Paraíba), mas radicado há mais de três décadas no Rio de Janeiro. “Eu já nasci cordelista, mas só comecei a escrever mesmo com 14 anos, com poesia em estilo livre. Aprendi cordel com o meu pai, que era analfabeto, mas que me alfabetizou em casa com as rodas de leitura. Isso me fez entender que o cordel é um patrimônio de cada poeta, de cada família do interior do Brasil, especialmente do Nordeste”, conta. Hoje, Severino dedica-se a publicar suas obras, mas também realiza oficinas de cordel e participa de eventos relacionados ao tema. É ele quem vai apresentando a quem chega à casa do cordel na Flip aos demais cordelistas. Com sua própria programação, o espaço conta com um palco improvisado, onde os autores declamam seus trabalhos e realizam pelejas —uma versão mais prosa das batalhas dos slams de poesia—.

Uma das repentistas mais experientes nas pelejas é Cleuza Santo, de 65 anos, que foi a primeira cordelista a publicar na cidade de São Paulo. “Meus pais são de Ilhéus, na Bahia, mas eu não tinha contato nenhum com essa cultura, só tinha uma vaga lembrança na infância de meu irmão lendo cordel. Um dia, fiz um curso de poesia e me apaixonei por essa literatura. Há 12 anos, me dedico a ela”, conta a autora, cuja obra é inteiramente voltada para o público infantil. Na casa do cordel, Cleuza é uma das mais entusiastas em relação ao título de Patrimônio Cultural Brasileiro. “Hoje temos a proteção federal da nossa arte. Antes, lutávamos sozinhos para que ela não morresse”.

Fonte: EL PAIS

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